A exibição do ótimo Corpos Celestes, dos diretores Marcos Jorge (Estômago) e Fernando Severo, marcou na noite desta sexta-feira o “fim” do Festival de Gramado 2009, cuja cerimônia de premiação acontecerá neste sábado, às 21h, no Palácio dos Festivais. A disputa pelo Kikito de Ouro será acirrada: além de Corpos Celestes, favorito, estão no páreo os longas Canção de Baal, de Helena Ignez, Cildo, de Gustavo Moura, Quase um tango, de Sérgio Silva, Em teu nome, de Paulo Nascimento, e Corumbiara, de Vincent Carelli.
Na categoria longa estrangeiro, destaque para produção peruana A Teta Assustada, de Claudia Llosa, premiado no Festival de Berlim deste ano, e o argentino Lluvia, de Paula Hernandez (prejudicado, diga-se, pela exagerada homenagem à apresentadora Xuxa Meneghel).
CORPOS CELESTES. Diferentemente do dia anterior (quinta), quando cerca de 40% do público se retirou do Palácio dos Festivais após a homenagem a Xuxa Meneghel – desprestigiando a exibição do competente Lluvia, de Paula Hernandez, visivelmente constrangida – a sessão de Corpos Celestes foi certamente a mais disputada. Muitos tiveram que ficar em pé durante os 90 minutos da película. Fora, porém, um esforço que valeu a pena. Calcado em uma intrigante intersecção entre o cinema e a astronomia, o longa nos mostra uma simpática e catártica história de amor e obstinação, em todos os sentidos. É, sobretudo, um daqueles filmes nos quais o espectador se flagra torcendo pelo personagem principal.
O ator Dalton Vigh dá vida à fase adulta de Francisco, que, enquanto criança, acaba se interessando por astronomia por conta de um misterioso vizinho, o norte-americano Richard, que todos na cidade acham ser louco. A infância do personagem, aliás, rende as melhores cenas do filme, como o contraponto das aulas de ciência e das “lições” singelas dadas por Richard ao curioso Chiquinho. Passam-se anos e Francisco se torna um astrônomo cético, que se vê apaixonado pela misteriosa Diana (Carolina Holanda). Assim, a narrativa incorpora um outro tom, mais comercial e menos autoral, por assim dizer.
EM TEU NOME. Em teu nome é, decerto, o principal concorrente de Corpos Celestes na disputa pelo Kikito de Ouro. O longa dirigido pelo gaúcho Paulo Nascimento (de Valsa para Bruno Stein, premiado em Gramado há dois anos) retoma uma temática comumente explorada no cinema: a ditadura militar, especificamente nos anos 70.
O diferencial, contudo, está na “visão pessoal” – como o próprio diretor explicou em sua entrevista coletiva –, o que deixa a questão política em segundo plano. O foco é a essência jovial das pessoas que participaram da luta armada. Para atingir tal objetivo, o roteiro (finalizado em apenas cinco dias) parte de memórias do juiz militar João Carlos Bona Garcia.
Um dos fatores que sustenta a narrativa, diga-se, é a empatia entre a dupla Fernanda Moro e Leonardo Machado. Nelson Diniz e Silvia Buarque também fazem um belo trabalho como coadjuvantes. Embora focado na “humanização” de personagens envolvidos com a luta armada, Em teu nome em momento algum se mostra inverossímil em relação ao cenário que se propõe recriar. Virtude esta que denota um amplo amadurecimento de Paulo Nascimento.Marcadores: cinema nacional, especiais, festival de gramado |