Crítica - 'Inimigos Públicos' e o talento de Michael Mann
30 Julho, 2009
Inimigos Públicos é um filme eficiente – apesar da narrativa longa e arrastada – no sentido de reproduzir o clima de veneração ao anti-herói John Dillinger, um dos gângsteres mais procurados pelo FBI na primeira metade do século XX, interpretado por Johnny Depp (A Fantástica Fábrica de Chocolates). Além disso, merece destaque a bem-sucedida humanização do personagem principal – estratégia do diretor Michael Mann para não limitá-lo à imagem clássica de um mafioso – casaco tipo sobretudo, chapéu de feltro e tiradas irônicas pulverizadas pelo roteiro.
Tais elementos estão presentes, claro. Entretanto, o foco se mantém em sua filosofia de vida desregrada (os planos para o assalto ao trem, por exemplo, simbolizam não só a possibilidade de um roubo multimilionário, mas como também a chance de se refugiar, adquirir novas experiências, transcender a mesmice); em seu ímpeto desafiador (sintetizado pela cena em que um cínico Depp visita o gabinete da Bureau e sai sem ser reconhecido) e na relação de intensidade e fidelidade com os demais personagens de seu círculo social, o que inclui Billie Frechette, interpretada pela apaixonante Marion Cotillard (vencedora do Oscar de Melhor Atriz por Edith Piaf: Um hino ao amor).
Michael Mann, especialista em filmes do gênero ação/policial (Fogo Contra Fogo, Miami Vice, entre outros), "moderniza" Dillinger, porém sem exageros – faz dele um criminoso que está muito mais para Frank Abgnale Jr. (década de 60) do que para Clyde Barrow (anos 30). Neste sentido, é justificável o uso do formato digital, algo que o diretor também fizera em Miami Vice.
O grande mérito de Mann, que até hoje é visto por muitos com desconfiança, é indiscutivelmente utilizar a câmera como uma espécie de caneta a fim de deixar a sua assinatura, característica que marcou a política dos autores, teorizada em artigo de François Truffault. Um artifício que acaba preenchendo evidentes falhas de roteiro (que, diga-se, contou com a colaboração do próprio autor do livro Public Enemies, Bryan Burrough), como a displicência em relação aos personagens de Marion Cotillard, J. Edgar Hoover e Stephen Graham; a postura até certo ponto passiva do detetive Melvin Purvis (interpretado por Christian Bale), entre outros. Uma das cenas brilhantemente pensadas por Mann e que é capaz de impressionar mesmo ao mais leigo é a em que Dillinger vai ao cinema ver Culpado pela Lei, clássico de W.S. Van Dyke, estrelado por Clark Gable. Assim que deixa a sessão, o gângster é, enfim, “culpado pela lei” ao ser alvejado pelo detetive Winstead (Stephen Lang) e, antes do último suspiro, balbucia uma mensagem para Billie Frechette: “Adeus Graúna”.