Na abertura do Festival do Rio, em 25 de setembro, o [EM CARTAZ] fez a cobertura não só da pré-estréia de Última Parada 174, no Cine Odeon, como tínhamos anunciado nos posts anteriores, mas como também da balada que rolou em seguida, na boate The Week, no Centro, exclusiva para convidados e jornalistas. Além disso, acompanhamos estréias badaladas como Queime Depois de Ler, dos irmãos Coen; Gomorra, de Matteo Garrone; Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen; O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme; Guerra sem cortes, de Brian de Palma; Rebobine, por favor, de Michael Gondry; Sinédoque Nova Iorque, de Charlie Kaufman; Um homem bom, de Vicente Amorim; La Leonera, de Pablo Trapero; Aquiles e a Tartaruga, de Takeshi Kitano; Velha Juventude, de Francis Ford Copolla; O Silêncio de Lorna, dos irmãos Dardenne; além de outros 23 filmes, dentre os quais clássicos como Julieta dos Espíritos, do mestre Fellini, e gratas surpresas como Minha Mágica, do iraniano Eric Khoo.
No total, o [EM CARTAZ] compareceu a 36 sessões em cinco cinemas diferentes. Veja a relação completa no fim da coluna. (Foto: Hanrrikson de Andrade/EM CARTAZ)
ÚLTIMA PARADA 174: UMA NARRATIVA POUCO CONVINCENTE
O longa de Bruno Barreto (O que é isso, companheiro?) não chega a empolgar, tampouco comover com a história de Sandro Barbosa do Nascimento, o seqüestrador do Ônibus 174, morto em 2000. Seja pela prerrogativa social ou pela nobreza da relação (ou da ausência de relação) entre uma mãe e um filho – extraído de uma das tragédias marcantes da crônica policial carioca –, não há sucesso nesse sentido. Na prática, Última Parada 174 faz com que o espectador saia do cinema certo de que também teria matado o rapaz após o desfecho do seqüestro, que foi transmitido em tempo real por várias emissoras de televisão mundo a fora, e culminou na morte da professora Geisa Firmo Gonçalves, de apenas 20 anos. (Foto: Hanrrikson de Andrade/EM CARTAZ)
E não se trata de uma simplória questão de julgamento. Ainda que a narrativa ficcional coloque a traumática morte da mãe como uma razão lógica (do ponto de vista da psiquiatria) para a metamorfose de Sandro – de vítima na Chacina da Candelária a anti-herói demoníaco –, o que é um bom ponto de partida para o roteiro, as negativas às várias oportunidades de redenção cansam o espectador, que, presume-se, já sabe como a história acaba. E essa impaciência, crescente com o desenrolar da trama, suscita reações instintivas, tal como na vida real (“a mão que afaga é a mesma que apedreja”). Assim, não é de se espantar que o espectador comum simplesmente ignore a busca de uma mãe pelo filho (no caso, Marisa, mãe do “amigo homônimo” de Sandro), isto é, a "nobreza" do roteiro.
Devemos considerar dois aspectos: a) a proposta do filme b) a realização, o produto final. Quanto à idéia, apesar da sensação de déja vu (como definiu a Variety), é impossível não perceber a preocupação em fugir do rótulo de favela movie. Os signos icônicos que remetem exclusivamente à questão da criminalidade são colocados de forma indireta, mascarados com alguma eficiência. Barreto, norteado pelo excelente documentário Ônibus 174, de José Padilha (Tropa de Elite), explora o personagem central a partir de suas especificidades (gestos, habilidades, expressões), dos sentimentos (o trauma pelo assassinato da mãe, a amizade com os meninos da Candelária, o amor por Soninha, o medo, a angústia, o refúgio das drogas) e da ausência de perspectiva, que o faz rejeitar às oportunidades que recebera na vida. (Foto: Divulgação)
A narrativa, porém, não é convincente. A problemática da invisibilidade social, que no documentário de Padilha conta com explicações precisas do sociólogo Luiz Eduardo Soares, é substituída por uma mera atribuição de culpa à sociedade. É claro que não nos cabe julgar as liberdades tomadas por Bruno Barreto e Bráulio Mantovani, o mesmo roteirista de Cidade de Deus. No entanto, a individualização da trajetória de Sandro, no sentido de transformá-lo em vítima, e a negligência em relação à história da professora Geisa Firmo Gonçalves, usada por Sandro como escudo e morta com quatro tiros, constituem um caminho perigoso e passível de críticas.
Não só pelas excelentes atuações (principalmente a de Michel Gomes), mas como também pela coragem de Barreto em apostar numa história que já era dada como simples estatística pela sociedade brasileira, Última Parada 174 pode ser classificado como um filme médio, com uma fotografia que não promete, e que tem potencial para garantir uma arrecadação razoavelmente boa. Não mais do que isso.

QUEIME DEPOIS DE LER. Um sério candidato ao Oscar, eu diria. Não só para os irmãos Cohen, mas como também para George Clooney como ator coadjuvante. Aliás, o elenco é uma das grandes virtudes de Queime Depois de Ler. Clooney, John Malkovic, Brad Pitt, Frances McDormand e Tilda Swinton estão excelentes. O roteiro é bem costurado e traz o já costumeiro humor inteligente da dupla de diretores. Foi decerto uma das estréias mais aguardadas neste Festival do Rio 2008, cujas sessões esgotaram rapidamente.
VICKY CRISTINA BARCELONA. Inteligência, bom gosto e preciosismo são características marcantes de Woody Allen, mesmo em seus últimos trabalhos, criticados por seguirem uma linha mais comercial e conveniente (vide Matchpoint e Scoop). Em Vicky Cristina Barcelona, o diretor retorna de forma sutil a sua fase neurótica, eternizada por clássicos como Manhattan e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. O único problema é a visão inadequada do diretor a respeito da cultura catalã. A impressão é a de que Allen recebeu uma proposta para filmar em Barcelona, fez uma breve pesquisa no Google e, logo em seguida, já agendou a montagem dos sets. O filme, que foi bastante criticado em Cannes, agradou ao público do Festival do Rio, pelo que pude perceber.
O [EM CARTAZ] acompanhou os seguintes filmes:
Última Parada 174 (Bruno Barreto) A Erva do Rato (Júlio Bressane) Alexandra (Alexander Sakurov) Aquiles e a Tartaruga (Takeshi Kitano) Águas de Katrina (Tia Lessin e Carl Deal) Cinzas do Passado – Redux (Wong Kar-Wai) Crítico (Kleber Mendonça Filho) Expresso Trans-Siberiano (Brad Anderson) Feliz Natal (Selton Mello) Gomorra (Matteo Garrone) Gonzo: Um Delírio Americano (Alex Gibney) Guerra sem cortes (Brian de Palma) Hipotecando os E.U.A (Patrick Creadon) Julieta dos Espíritos (Federico Fellini) La Leonera (Pablo Trapera) Minha Mágica (Eric Khoo) Ninho Vazio (Daniel Burman) O Casamento de Rachel (Jonathan Demme) O Pai de Giovanna (Pupi Avati) O Silêncio de Lorna (Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne) Pai Patrão (Vittorio Taviani e Paolo Taviani) Puffball (Nicolas Roeg) Queime Depois de Ler (Ethan Coen e Joel Coen) Quatro Noites com Anna (Jerzy Skolimowski) Rebobine, por favor (Michael Gondry) Rio Congelado (Courtney Cunt) Sinédoque, Nova Iorque (Charlie Kaufman) Sob Controle (Jennifer Lynch) Sobre o Tempo e a Cidade (Terence Davies) Sukiyaki Western Django (Takashi Miike) Teorema (Píer Paolo Pasolini) Um Dia Perfeito (Ferzan Özpetek) Um Homem Bom (Vicente Amorim) Velha Juventude (Francis Ford Coppola) Verão de 62 (Mehdi Charef) Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen)
A coluna Além das Telas é escrita por Hanrrikson de Andrade e publicada no Aforismo [EM CARTAZ] às segundas-feiras.Marcadores: além das telas, bruno barreto, cinema nacional, criticas, especiais, estreias, ethan e joel coen, festival do rio, queime depois de ler, vicky cristina barcelona, woody allen, última parada 174 |