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 Colunas - Além das Telas - N° 3 - Linha de Passe não é mero "painel social"
16 Setembro, 2008
ria um equívoco dizer que Linha de Passe prescinde de um gancho sólido como a realidade socioeconômica brasileira, a qual, nos últimos anos, foi usada à exaustão pelo cinema nacional contemporâneo. Todavia, é importante frisar que a obra da dupla Walter Salles (Central do Brasil, Abril Despedaçado, Diários de Motocicleta) e Daniela Thomas (Terra Estrangeira, em parceria com o próprio Walter Salles), cujo último trabalho tinha sido O Primeiro Dia (Brasil, 1998), vai muito além das problemáticas sociais. A beleza do filme está na concepção dos detalhes, na forma como cinco histórias paralelas se entrelaçam e na grandiosidade de cada personagem, cada qual com suas particularidades. Linha de Passe "passa" longe do clichê da violência urbana e do chamado sensacionalismo artístico, afinal, não há balas perdidas, carnificina, traficantes de drogas ou uso da estética do crime. Toda e qualquer imagem negativa que um cidadão comum é capaz de ter do universo periférico de um grande centro urbano – no caso, São Paulo – é substituída pela capacidade de reinvenção do ser humano ante as situações adversas, sem que para isso seja desenhado algo como um “painel social”, o que seria uma visão deveras simplista.

O roteiro de George Moura e Daniela Thomas é centrado em Cleuza, mãe solteira de quatro filhos e grávida do quinto, personagem de Sandra Corveloni, premiada no Festival de Cannes como melhor atriz, e no futebol como um elemento cognitivo, que conecta não só mãe e filhos, mas como os próprios irmãos. A cena em que Cleuza, torcedora fervorosa do Corinthians, debate com os filhos Denis (João Baldasserini), Reginaldo (Kaique de Jesus Santos), Dinho (José Geraldo Rodrigues) e Dario (Vinícius de Oliveira, o Josué de Central do Brasil) sobre os rumos do clube paulista no Campeonato Brasileiro, durante a refeição, é um bom exemplo da acepção praticamente religiosa sob a qual o futebol é usado no filme. Ainda que os personagens não tenham motivos para sorrir, as brincadeiras, provocações e a descontração fazem com que uma sensação de paz e harmonia tome conta da família, tal como em qualquer outra. O esporte como um elemento de intersecção e ascensão social (esta última através de Dario), típico das comunidades carentes, é um dos vários simbolismos do filme. São representadas ainda a religião, na figura do evangélico Dinho; e uma espécie de exploração do trabalho, por meio do moto boy Denis, que ao fim da trama acaba por ceder às tentações da criminalidade. Todos esses simbolismos giram em torno da esperança em dias melhores, em detrimento da conformação com os obstáculos, a qual é a principal mensagem transmitida por Linha de Passe.

O próprio Walter Salles, em entrevista por e-mail à Folha de São Paulo, comentou sobre a força que o futebol e a religião exercem sobre boa parte da população brasileira. “Futebol e religião se encontram em mais de uma frente no Brasil. Primeiro, naquilo que é mais facilmente perceptível: na proximidade entre o fervor das torcidas e a fé dos crentes. Depois, no fato de que para um jovem desfavorecido, o futebol representa uma saída desejada, embora raramente possível. A religião, de alguma forma, também”, disse o cineasta, que teve como inspiração dois documentários dirigidos por seu irmão, João Moreira Salles: Futebol e Santa Cruz.

O viés humano e existencialista da trama ganha intensidade com o garoto Reginaldo, e sua fixação por ônibus, na verdade, uma tentativa desesperada de encontrar o pai, um motorista que abandonara a família. A atuação do estreante Kaique de Jesus Santos, de apenas 14 anos, é realmente impressionante: o olhar furtivo, porém destemido e sombrio, além da veemente rejeição ao rótulo de bastardo, são características que o diferem de um modo especial. Reginaldo, o único negro da família, é decerto o personagem mais forte, denso, que sozinho já conseguiria combater um possível rótulo simplista ao contexto da obra. O caçula dos quatro irmãos faz com que todos cresçam com o desenrolar da trama, principalmente Cleuza, a personagem de Sandra Corveloni. Independentemente do parentensco em questão, os dois personagens estão intimamente ligados, pois há um sentimento de abandono em comum (talvez por isso Cleuza tenha engravidado novamente). O desfecho em relação a Reginaldo é perfeito: sozinho, aos trancos e barrancos, numa dose ímpar de realismo, o garoto consegue “roubar” um ônibus e partir sozinho em busca do pai, de uma origem, de uma identidade. É simplesmente genial.

O desfecho, por sinal, é o ponto intrigante de Linha de Passe. Muitas pessoas não gostaram. Quem foi ao cinema à espera de obviedade, certamente deixou a sessão com alguns pontos de interrogação acima da cabeça. As cenas são pontuais: Reginaldo conduzindo o ônibus, o pênalti de Dario, o conflito existencial de Dinho após o batismo (uma das cenas mais simbólicas de todo o filme), a incerteza e a autopunição de Denis; todas elas convergem para que o próprio espectador decida o final que julgar mais adequado. A realidade está ali, na tela, exposta de uma forma singela e detalhista; cabe às pessoas refletirem no sentido de julgar se aquela família (igual a muitas outras no país) é realmente capaz de superar os obstáculos da vida. O pessimismo ou o otimismo fica a cargo do espectador.

SEM DESCANSO. Walter Salles prepara para o próximo ano a adaptação cinematográfica do livro On the Road (“Pé na Estrada”), de Jack Kerouak, um dos clássicos da geração beat. Ele, inclusive, já filmou com alguns dos personagens do livro que estão vivos. Na entrevista por e-mail à Folha de São Paulo, Salles comenta: "Existem várias matrizes dentro do movimento beat, mas cinco poetas que estão na sua origem me marcaram profundamente".

FORA DA DISPUTA. Causou espanto a ausência de Linha de Passe na relação de filmes brasileiros que concorrerão à indicação para o Oscar de melhor filme estrangeiro, divulgada na última terça-feira (9). A reunião da comissão de seleção acontece nesta terça (16), às 14h, e o resultado será informado pela Secretaria do Audiovisual ao fim do encontro. O longa de Walter Salles e Daniela Thomas era um forte candidato à indicação, mas os diretores acharam melhor não participar do processo de seleção. Nesta segunda-feira, Salles emitiu no site oficial do filme um comunicado explicando as razões pelas quais Linha de Passe ficou fora da disputa.

Confira abaixo a relação dos 14 concorrentes:

A Casa de Alice, de Chico Teixera
A Via Láctea, de Lina Chamie
Chega de Saudade, de Laís Bodanski
Era Uma Vez, de Breno Silveira
Estômago, de Marcos Jorge
Meu nome não é Johnny, de Mauro Lima
Mutum, de Sandra Kogut
Nossa vida não cabe num Opala, de Reinaldo Pinheiro
Olho de Boi, de Hermano Penna
Onde andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado
O Passado, de Hector Babenco
Os Desafinados, de Walter Lima Júnior
O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Riccelli
Última Parada 174, de Bruno Barreto

A comissão de seleção é formada por Antonio Alfredo Torres Bandeira, Cléber Eduardo, Silvia Maria Sachs Rabello, Maria Dora Genis Mourão, Giba Assis Brasil e Paulo Sérgio Almeida. A presidência é do secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Silvio Da-Rin.

Boyle rouba a cena no Festival de Toronto

Do clima romântico entre os atores Mark Ruffalo e Adrien Brody (veja a foto ao lado), que contracenam em The Brothers Bloom, ao lançamento do documentário sobre a vida da digníssima “atriz” Paris Hilton, intitulado Paris, Not France. Em todos os sentidos, a comédia foi o tema central da 33ª edição do Festival de Toronto. E quem pôde mesmo rir ao fim do evento foi o diretor britânico Danny Boyle (Trainspotting, A Praia). Slumdog Millionaire, baseado na vida de um adolescente das favelas indianas que consegue a chance de se tornar milionário em um show de televisão, venceu o principal prêmio do evento, o Cadillac People’s Choice, no último sábado. A atriz Freida Pinto recebeu o prêmio no lugar de Boyle, que não pôde comparecer.

As filmagens de Slumdog Millionaire ocorreram em Mumbai, uma das maiores cidades da Índia. O roteiro é assinado por Simon Beaufoy, o mesmo de Blow Dry. Além de Freida Pinto, o elenco conta também o britânico Dev Patel, da série de TV Skins, exibida no Reino Unido no ano passado. Baseado em fatos reais, Slumdog Millionaire conta a história de um rapaz pobre e analfabeto, que vence um jogo num show de televisão e levanta suspeita de ter trapaceado. A intenção inicial, porém, era apenas a de reconquistar uma garota da qual gosta.

Hunger, de Steve McQueen, e Lymelife, de Derick Martini, também foram premiados no Festival de Toronto. O primeiro, que já havia vencido o Caméra d'Or em Canees, recebeu a estatueta de melhor descoberta. Lymelife, por sua vez, foi escolhido pela Fipresci (Federação Internacional dos Críticos de Cinema).

O Cadillac People’s Choice é escolhido por meio de júri popular e, geralmente, costuma apontar os favoritos ao Oscar. Em 2007, o vencedor foi Juno, de Jason Reitman (Obrigado por Fumar); o evento foi considerado como um termômetro para a Academia. A edição deste ano, porém, não empolgou. Muitos estúdios seguraram filmes por questões estratégicas ou porque simplesmente não estavam prontos, como, por exemplo, Milk, The Curious Case Of Benjamin Button, A Troca e Austrália. Além disso, longas elogiados em Cannes, como Che e Ensaio Sobre a Cegueira, e Veneza, como The Burning Plain, não empolgaram o público do festival canadense.


Veja aqui a lista de filmes estrangeiros que serão exibidos no Festival do Rio, que acontece de 25 de setembro a 9 de outubro, divulgada nesta segunda-feira (15). São cerca de 350 obras, de 60 países, divididas em 12 seções. Na Mostra Panorama, por exemplo, destacam-se Birdwatchers, de Marco Bechis, La Frontière de L'Aube, de Philippe Garrel, Rachel Getting Married, de Jonathan Demme, Synecdoche, New York, de Charlie Kaufman, Transsiberian, de Brad Anderson, e Un Giorno Perfetto, de Ferzan Ozpetek. Já a Expectativa traz Aquele querido mês de agosto, de Miguel Gomes, Boogie, de Radu Muntean, En La Ciudad de Sylvia, de José Luis Gueri, The Caller, de Richard Ledes, entre outros. Há ainda outras seções como a Foco UK, Midnight Movies, Mundo Gay, Premiére Latina, Mostra Geração, Mostra Fronteiras, Tributo Ao Centenário da Imigração Japonesa, Mostra Dox e Ícones da Música.

Clique aqui para ver a relação dos filmes nacionais que participarão do Festival do Rio.

Veja aqui a lista com as primeiras atrações da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, divulgada nesta segunda-feira. Obras de destaque como Queime Depois de Ler, dos irmãos Coen, Teza, de Haile Gerima, Palermo Shooting, de Wim Wenders e Tokyo!, de Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho estarão em cartaz. Outro destaque é a retrospectiva com dez filmes do mestre sueco Ingmar Bergman, morto no ano passado e que completaria 90 anos em 2008.

Em apenas quatro dias, Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, já levou mais de 120 mil pessoas aos cinemas. Esse resultado confere ao filme a melhor média por cópia de todo o mercado. Em termos de arrecadação, Ensaio Sobre a Cegueira já arrecadou R$ 1.232.000, ultrapassando os resultados antes alcançados por Cidade de Deus (R$ 1.015.000) e O Jardineiro Fiel (R$ 858.000). O filme, inspirado na obra homônima do escritor português José Saramago, traz Julianne Moore, Mark Ruffallo e Danny Glover no elenco.

A coluna Além das Telas é escrita por Hanrrikson de Andrade e publicada no Aforismo [EM CARTAZ] às segundas-feiras.

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    Bookmark and Share   postado por Hanrrikson de Andrade @ 16.9.08   0 comentários

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