RIO DE JANEIRO - Os Desafinados surgiu com uma proposta simples: homenagear a Bossa Nova, que se tornou cinqüentenária em 2008, e a música brasileira como um todo. A priori, a obra ficcional de Walter Lima Júnior (A Ostra e o Vento), Suzana Macedo e Elena Soarez pode até ser classificada como um doce retrato da época em que o diminutivo era uma tendência entre os compositores, tal como observa Dico, o personagem de Selton Mello, em uma de suas primeiras falas. De fato, a leveza rítmica, as letras repletas de contemplações e a magia poética do referido estilo musical são muito bem contextualizados. A música cumpre o seu papel, por assim dizer. No entanto, falta à Os Desafinados mais realismo, intensidade, precisão nos detalhes. No fim das contas, aos olhos de um espectador comum, trata-se de mais um bom filme; sob a visão de um indivíduo com senso crítico mais apurado, assemelha-se a uma novela qualquer do autor Manoel Carlos.
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O sonho dos músicos em conquistar a América ganha intensidade com a frase do bateirista Paulo César (André Moraes), proferida após uma demonstração de fúria ante ao tambor, bumbo e pratos: “Nós vamos para Nova Iorque na marra”. Mas isso não acontece, digamos, da maneira que deveria acontecer. Cenas depois, com o grupo musical já devidamente instalado em solo norte-americano, surge a pergunta: cadê a marra? Aonde estão as dificuldades pelas quais, a princípio, passariam? São mais de sete meses sem um emprego propriamente dito, regados a doses de conhaque, cigarros e ingressos para casas noturnas; seja num pequeno quarto de hotel ou na casa de Glória Goldfaber, personagem de Cláudia Abreu. Um exemplo desse distanciamento é quando Geraldo (Jair de Oliveira) resolve comprar um Fender Jazz Bass, o mais moderno da época, numa renomada loja de instrumentos musicais.
Há ainda outros exageros, incoerências e falhas técnicas gritantes. As conexões entre passado e presente, por exemplo, são mal feitas. Não há uma naturalidade na fala dos personagens, de forma que todo o filme parece dublado, independentemente do idioma. O cineasta e produtor Dico, enquanto velho, é interpretado por Arthur Khol (aquele do Telecurso 2000), mas a voz continua (ou pelo menos essa foi a sensação que tive) a ser de Selton Mello. Além disso, há um exagero em relação ao uso do cigarro como elemento de cena – está presente em 90% dos takes, independentemente do ambiente e do contexto da cena. Existe um take de apenas três ou quatro segundos, no meio do filme, que chega a ser irritante: Joaquim (Rodrigo Santoro) chega em sua casa e observa que a mulher (Alessandra Negrini) e a filha saíram. – Corte. – Joaquim se senta num local semelhante à beira de um rio e acende um cigarro, mesma coisa que ele tinha feito no take anterior. A isso se resume a cena: três segundos para o personagem se sentar, reflexivo, e acender um cigarro. Os mais maldosos diriam: “Isso é muito Bossa Nova”.
As locações são excelentes: Rio de Janeiro, Nova Iorque, Buenos Aires. Todavia, os closes são fechados, tal como nas novelas e minisséries da Rede Globo. São quase duas horas e meia de filme que se passam de maneira arrastadiça, numa verdadeira confusão de valores: amizade (mas e a relação entre Davi e Glória, no momento em que ela e Joaquim estão brigados? Não é inaceitável que um homem seja apaixonado pela “mulher” do seu melhor amigo. Inadmissível é que isso seja tratado como um ponto irrelevante da trama), amor (a idéia é a de que Joaquim tem amor pela esposa, Luíza, e amor mais paixão por Glória. Essa dicotomia faz do personagem vazio e do “amor” entre Joaquim e sua amante algo dispensável), obstinação (os motivos pelos quais a banda fracassa na perseguição ao sucesso também não é bem colocado, afinal, a partir de um determinado ponto, o foco passa a ser as filmagens de Dico e não o grupo musical), reflexão política (mas o tiro sai pela culatra, uma vez que a ditadura é abordada de forma puramente negligente. Além disso, o misterioso sumiço de Joaquim - na verdade, uma homenagem de Walter Lima Jr. ao músico Teófilo Júnior - não tem o menor sentido).
O elenco é um dos pontos a favor do filme. Ângelo Paes Leme, Rodrigo Santoro e Selton Mello estão bem, assim como Cláudia Abreu (cujos seios são mostrados à exaustão, sem necessidade). André Moraes tem realmente cara de bateirista e acrescenta espontaneidade ao personagem. Jair Oliveira teve boa atuação, considerando a inexperiência no ramo (sua veia musical é uma contribuição considerável). A fotografia é satisfatória, mas poderia ser melhor, principalmente no que diz respeito às imagens de época.
Os Desafinados constrói uma imagem vazia, minimalista e superficial de um estilo musical que, apesar de lento e piegas, foi revolucionário a ponto de expandir os horizontes artísticos de músicos de diferentes países. Nada contra o "barquinho", o "cantinho" e o "banquinho". Mas quem não tem paciência para a Bossa Nova e é dos que acreditam que João Gilberto canta assoviando, decerto, teve vontade de atear fogo ao cinema durante a sessão de Os Desafinados. Quem não conhecia, continuou a desconhecer. Já os que gostam estão ansiosos pelo lançamento da trilha sonora, mas definitivamente não comprarão o DVD.
Título Original: Os Desafinados Gênero: Comédia Romântica Tempo de Duração: 131 minutos Ano de Lançamento (Brasil): 2008 Estúdio: Tambellini Filmes Distribuição: Downtown Filmes Site Oficial: www.osdesafinados.com.br Direção: Walter Lima Jr. Roteiro: Walter Lima Jr., Suzana Macedo e Elena Soarez Produção: Flávio R. Tambellini Música: Wagner Tiso Fotografia: Pedro Farkas Desenho de Produção: Valéria Costa Direção de Arte: Clóvis Bueno Figurino: Marília Carneiro e Karla Monteiro
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