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 Colunas - Além das Telas - N° 2 - Rourke devolve o brilho a Veneza
07 Setembro, 2008
O Leão de Ouro para The Wrestler, do americano Darren Aronofsky (Pi, Requiem para um sonho, Fonte da Vida), foi o que de melhor poderia acontecer para a 65ª edição do Festival de Veneza. A nuvem de desânimo, tédio e estupefação que pairava sobre o Palazzo del Cinema, decorrente dos inúmeros filmes inexpressivos e sem a menor qualidade exibidos durante o evento, foi substituída pela irreverência de Mickey Rourke (Nove e meia semanas de amor, O Selvagem da Motocicleta, Coração Satânico), que ressurgiu magistralmente interpretando o ex-lutador Randy "The Ram" Robinson, o melhor trabalho de sua polêmica carreira; pelo merecido reconhecimento ao trabalho de Aronofsky, que já há algum tempo é classificado como um dos cineastas de linguagem mais rebuscada e intelectualizada da nova geração, mas que foi vaiado em Veneza há dois anos por conta da complexidade incompreendida de Fonte da Vida; e por uma espécie de sensação triunfal dos hollywoodianos em geral. Afinal, as produções norte-americanas selecionadas para o Festival de Veneza, tão acostumado ao rótulo de prévia do Oscar, eram dadas como simples coadjuvantes.

Nem Akires to Kame (Takeshi Kitano), nem Jerichow (Christian Petzold), nem Il Papà di Giovanna (Pupi Avati). A sensação de que o futuro vencedor do Leão de Ouro surgira só aconteceu na última sessão dos concorrentes ao prêmio, na última sexta-feira. Estilisticamente, The Wrestler segue o caminho contrário dos trabalhos anteriores de Aronofsky. Muito mais realista, doloroso, intenso, o filme conta a trajetória do ex-campeão de luta livre Randy "The Ram" Robinson (que atualmente mora num trailer e faz bicos em um supermercado) e sua determinação em voltar ao topo após uma parada cardíaca. Rourke, que só não venceu o Copa Volpi de melhor ator por conta das regras do festival, foi a escolha perfeita para o papel. Faz do filme o que ele é afinal. A vibração com a qual interpreta "The Ram" o coloca num patamar muito acima do que esteve até então. A edição de domingo do jornal italiano "Corriere della Sera", que desde o começo tem feito a melhor cobertura online do festival, traz uma manchete que define com proficiência a entusiástica guinada na carreira do ator: "O rugido de Rourke".

Essa sintonia entre personagem e intérprete se deve, em parte, às próprias experiências pessoais de Mickey Rourke. Ele, que fez muito sucesso na década de 80 com filmes como Nove e meia semanas de amor e O Selvagem da Motocicleta, chegou a largar o cinema para, em 1991, se lançar à carreira de boxeador, antigo sonho de adolescência. Porém, não obteve êxito. Em quatro anos, o máximo que ganhou foi um rosto desfigurado por jabs, uppers e hooks, o que o levou a apelar para inúmeras cirurgias plásticas. O próprio ator admitiu as semelhanças: "É muito doloroso quando você não consegue mais fazer algo que conseguia e quem percebe isso não é você, mas outra pessoa que vem te dizer. Sim, posso fazer um paralelo entre esse filme e minha carreira, que joguei fora há 15 anos. E só posso culpar a mim mesmo", conforme publicou a Folha de São Paulo.

Não fosse por The Wrestler, a 65ª edição do Festival de Veneza teria sido a pior da história do evento. Do verdadeiro linchamento moral ao thriller erótico-literário Inju, La Bête dans L'Ombre, do diretor iraniano Barbet Schroeder (O Reverso da Fortuna, Advogado do Terror), passando pelas transgressões de mau gosto da co-produção Brasil-China Plastic City, à discórdia causada por Il Seme della Discordia, de Pappi Corsicato, mais um fiasco italiano a ser ridicularizado em "seus domínios". Um mau presságio para a indústria cinematográfica, principalmente no que diz respeito às produções européias e asiáticas. De qualquer forma, agora é hora de levantar a cabeça e buscar a redenção no Festival de Toronto.


Leão de Ouro de melhor filme: The Wrestler, do americano Darren Aronofsky.

Copa Volpi de melhor ator: Silvio Orlando, por Il papa di Giovanna.

Copa Volpi de melhor atriz: Dominique Blanc, por L'Autre.

Leão de Prata de melhor roteiro: Aleksey German Jr., por Paper Soldier.

Prêmio Especial do Júri: Haile Gerima, por Teza.

Leão Especial do Júri: Werner Schroeter.

Prêmio Luigi di Laurentis: Pranzo di Ferragosto, de Gianni di Gregorio.

Prêmio Marcello Mastroianni de atriz revelação: Jennifer Lawrence, por The Burning Plain.

Prêmio Osella de melhor fotografia: Alisher Khamidhodjaev e Maxim Drozdov, por Paper Soldier.

Prêmio Osella de melhor roteiro: Haile Gerima, por Teza.

FESTIVAL DE TORONTO. Começou na última quinta-feira (4) a 33ª edição do Festival Internacional de Toronto, no Roy Thomson Hall, no Canadá, um dos vários eventos significativos que precedem o Oscar. Diferentemente das últimas edições, nas quais o foco fora o governo Bush, a Guerra do Iraque, e as relações dos Estados Unidos com o resto do mundo, a organização do festival canadense optou pelo humor como tema central. A idéia é destacar a redescoberta da comédia no cinema norte-americano como um elemento de transição político-cultural.

O evento foi aberto com o longa Passchendaele, do ator e cineasta canadense Paul Gross. Várias estrelas de Hollywood, entre as quais Brad Pitt, Adrien Brody, Benicio Del Toro e Peter O'Toole, marcaram presença. Até o dia 13 de setembro, 312 filmes, de 64 países, serão exibidos em Toronto (dos quais 116 são estréias mundiais, incluindo Última Parada 174, de Bruno Barreto). O cinema brasileiro, aliás, terá um papel de destaque: entre produções e co-produções, são sete filmes participantes. Destaque para o tão esperado Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, e Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas.

Hollywood também será muito bem representado. Miracle at St. Anna, de Spike Lee (classificado pela crítica internacional como um “retorno à militância” de Lee), e o vencedor do Leão de Ouro, The Wrestler, de Darren Aronofsky, são nomes ansiosamente aguardados. Vale a pena lembrar que, em Toronto, a mostra competitiva não possui um júri especializado. A escolha para o prêmio principal é de responsabilidade do público. Em 2007, o grande vencedor foi Juno, de Jason Reitman (o mesmo de Obrigado por Fumar).

REPETECO? Burn After Reading (Queime Depois de Ler), de Ethan e Joel Coen (Onde os Fracos Não tem Vez, que faturou os Oscars de melhor roteiro adaptado, ator coadjuvante para a estupenda atuação de Javier Bardem, direção e melhor filme), foi exibido pela primeira vez na América do Norte na última sexta-feira, no Festival de Toronto, no Canadá. Esta é a estréia "em grande estilo" dos irmãos Coen - a primeira foi no Festival de Veneza, na Itália -, o que já alimenta o favoritismo para o Oscar do próximo ano. Será??

DICA PARA QUEM MORA/ESTÁ EM SÃO PAULO: Ainda Orangotangos, do gaúcho Gustavo Spolidoro, que é o primeiro longa brasileiro filmado em plano-seqüência, isto é, tudo em um único take. A façanha está em cartaz em São Paulo desde a última sexta-feira (5). São ininterruptos 81 minutos, gravados entre os dias 7 e 13 de dezembro de 2006, sempre das 19h30 às 21h. A obra é uma adaptação de seis contos do livro homônimo escrito pelo também gaúcho Paulo Scott, roteirizados pela dupla Spolidoro e Gibran Dipp. A trilha sonora é marcada pelo inconfundível rock gaúcho.

DICA PARA QUEM MORA/ESTÁ NO RIO. Começa nesta terça-feira (9) e vai até o dia 21 de setembro a Mostra Internacional de Filmes da Periferia, o Cine Cufa (Central Única das Favelas), no Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro do Rio de Janeiro. Serão exibidos oito longas e 121 curtas (entre os quais 51 documentários) de países como Brasil, Estados Unidos, França e Cuba, além de debates sobre o papel social dos jovens, mercado de trabalho e novas mídias digitais. Destaque para o documentário L.A.P.A, sobre o tradicional berço da boemia carioca. Todas as sessões têm entrada franca.

A coluna Além das Telas é escrita por Hanrrikson de Andrade e publicada no Aforismo [EM CARTAZ] às segundas-feiras.

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    Bookmark and Share   postado por Hanrrikson de Andrade @ 7.9.08   0 comentários

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