CRÍTICA - 'O Fantástico Sr. Raposo', de Wes Anderson
02 Dezembro, 2009
Embora as animações tenham melhorado vertiginosamente com a crescente evolução da tecnologia audiovisual, uma parcela considerável dos espectadores dito comuns ainda tem para si a ideia de que são filmes inferiores - uma espécie de produto segmentado, direcionado a um determinado tipo de público. De Hayao Miyazaki a Andrew Stanton, poucos foram os cineastas que conseguiram transgredir tal pré-julgamento e alçar uma animação ao topo das listas gerais. Talvez por isso a estreia do talentoso Wes Anderson no gênero tenha gerado tanta expectativa.
O Fantástico Sr. Raposo, que abriu o Vale Open Air na última sexta-feira, no Jockey da Gávea, é um cativante stop-motion baseado na fábula Raposas e Fazendeiros, de Roald Dahl, o mesmo que escreveu o livro que originou A Fantástica Fábrica de Chocolates. Com simplicidade narrativa e ironia sutil na construção (e na humanização) dos personagens, o diretor de Os Excêntricos Tenenbaums e Viagem a Darjeeling adiciona a sua filmografia uma obra leve, competente e fácil de ser compreendida.
Pelo título já se pode chegar à conclusão óbvia de que o personagem central será uma raposa. Pois sim, uma raposa inteligente, colunista de um jornal, que assina pelo curioso e redundante nome Mr. Fox (Sr. Raposo, em português). Rapidamente, surge uma identificação entre o personagem animado e muitos dos espectadores, por um motivo simples: a rotina. Quando o Sr. Raposo faz um autoquestionamento - "Quem sou eu?" -, constatamos ali a crise existencial de um típico cidadão americano, pai de família, entediado com o seu emprego e prestes a jogar tudo para o alto em busca de um "algo mais".
O protagonista se muda com a família para uma árvore, localizada em uma colina, ambiente no mínimo diferente em relação ao que estava acostumado. Perto dali, há três fazendas, das quais o Sr. Raposo passa a roubar galinhas para alimentar a família. Percebemos então o retorno de uma raposa a sua natureza animal, antes reprimida pelas vida monótona que levava. Essa nova perspectiva permite ao diretor Wes Anderson explorar um mote mais infantil, dando ao roteiro um autêntico contorno de fantasia.
A questão estética também é um trunfo fundamental no desenvolvimento de O Fantástico Sr. Raposo. Diferente das animações convencionais que se multiplicam ano após ano na indústria hollywoodiana, o filme de Anderson prima pela elegância, com uma eficiente profusão de cores e um toque "clássico".
Em fase de animações insolentes como Tá Chovendo Hamburger e Up - Altas Aventuras, o filme de Wes Anderson surge como um bom argumento para os que se contrapõem às críticas preconceituosas em relação ao gênero.
Além das duas produções já citadas no parágrafo anterior, O Fantástico Sr. Raposo figura na lista das 20 animações pré-selecionadas ao Oscar. Outros bons filmes estão na briga por uma das cinco indicações, tais como Coraline e o Mundo Secreto, Os Fantasmas de Scrooge, Planeta 51 e Ponyo À Beira-Mar, sendo este último o meu favorito.
Projeto 'As Aventuras do Avião Vermelho' ganha site oficial
O longa-metragem de animação As Aventuras do Avião Vermelho, baseado no livro homônimo de Erico Verissimo (lançado em 1936), lançou seu site oficial: www.aviaovermelho.com.br. Com direção de Frederico Pinto e José Maia, o filme é uma produção da Armazém de Imagens e Okna Produções e está previsto para ser lançado em 2011. No site é possível encontrar todas as novidades, atualizadas semanalmente. Os internautas podem acessar um blog interativo, imagens, vídeos e acompanhar os processos de produção, como a evolução da animação e gravação das vozes. Além disso, disponibiliza ainda as sinopses, fichas técnicas do elenco e equipe, releases para imprensa, contatos, entre outras informações.
O longa combina a tradicional técnica do desenho animado 2D, produzido em papel, com as possibilidades de movimentação espacial da animação digital 3D.O elenco possui atores consagrados, como Lázaro Ramos, Fernando Alves Pinto, Wandi Doratiotto, Zezeh Barbosa e Sérgio Lulkin, que gravaram nos últimos meses as vozes dos personagens Chocolate, Lunar, Ursinho, Josefina e Pai, respectivamente.
A trama apresenta a história de Fernandinho, um menino de 8 anos, que perdeu a mãe há pouco tempo, tornando-se um garoto solitário, sem amigos e com problemas de relacionamento com o pai e na escola. Sem saber como lidar com a situação, o pai tenta conquistá-lo com presentes. Nada funciona até que ele dá para o filho um livro de sua infância. Encantado com a história, Fernandinho decide que precisa de um avião para salvar o Capitão Tormenta – aviador personagem do livro, que está preso no Kamchatka. A bordo do Avião Vermelho e junto com seus brinquedos favoritos, Ursinho e Chocolate, que ganham a vida com sua imaginação, Fernandinho visita lugares inusitados, como a Lua e o fundo do mar, e percorre diferentes territórios – África, China, Índia, Rússia. Ao longo dessa jornada, ele descobre o prazer da leitura, a importância de ter amigos e o amor do pai.
A largada para este projeto foi dada em 2003, quando foi premiado no Edital do 2º Prêmio Santander Cultural-Prefeitura de Porto Alegre para Desenvolvimento de Projetos de Longa-Metragem. Após, a entrada de importantes patrocinadores – BNDES e Petrobras – garantiu o início da viabilização. Orçado em 3 milhões de reais, o filme pretende completar seu orçamento financeiro com novas captações de recursos, que devem acontecer em 2009 e 2010. Vale destacar ainda que importantes empresas gaúchas já aderiram ao projeto como patrocinadores. São elas: Banrisul Consórcios, Banrisul Corretora, BRDE, Corsan, Eny Calçados, Metasa, Randon, Sulgás e Unifértil.
'2012' puxa a lista de estreias da semana - 13/11/2009
12 Novembro, 2009
Com Independence Day (1996) e O Dia Depois de Amanhã (2004), o alemão Roland Emmerich fez dos filmes-catástrofe a sua marca registrada. Em 2012, longa que entra em cartaz nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira, 13 de novembro, o diretor apresenta a sua obra mais madura (e mais cara: US$ 260 milhões) no que se refere a esse subgênero. Como não poderia ser diferente, incríveis efeitos especiais são o carro-chefe na investida comercial de entretenimento tipicamente hollywoodiano.
Entretanto, há alguma profundidade narrativa nesta versão mitológica do tão temido - e ao mesmo tempo fascinante - "fim dos tempos". Com livre inspiração em uma profecia Maia, que antevê o tal desfecho apocalíptico para a Terra no dia 21 de dezembro de 2012, Emmerich mira na angústia (tensão, espanto) e no drama (comoção) ao fazer uso de dois núcleos dramáticos, que envolvem paralelamentte o alto escalão do governo estadunidense e um simples motorista de limousine e sua família.
Outros filmes que entram em cartaz nesta sexta (13): Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee, longa que abriu o Festival do Rio deste ano; a animação De Profundis, de Miguelanxo Prado; o ótimo Hotel Atlântico, de Suzana Amaral; a comédia argentina Um namorado para minha esposa, de Juan Taraturo; o drama No meu lugar, do carioca Eduardo Valente; e o decepcionante TOKYO!, também exibido no Festival do Rio, com o trio Leos Carax, Michel Gondry e Bong Joon-ho na direção. Confira os trailers no post seguinte.
No âmbito da pseudociência, o tal fenômeno de 2012 diz respeito ao fim do Calendário de Contagem Longa Mesoamericano, que possui ciclos de 5.125 anos. Na verdade, a profecia não antevê necessariamente o término da existência e sim um processo de renovação, de transição física ou espiritual, de acordo com o conjunto de conceitos da Nova Era. No filme, o dia 21 de dezembro marca um alinhamento cósmico que desencadeia uma série de eventos catastróficos, tais como furacões e maremotos. Para os brasileiros, o destaque especial (e uma bela sacada de marketing) fica por conta da destruição total do Cristo Redentor, símbolo histórico da cidade do Rio de Janeiro. No entanto, não vale a pena se empolgar: a cena é rápida e feita com certa negligência. Uma pena ter se limitado à condição de marketing regional.
O primeiro núcleo é centralizado na figura do presidente norte-americano, intepretado pelo sempre eficiente Danny Glover (uma versão "emmerichiana" de Barack Obama). Ele e seus cientistas, que já sabem do eminente apocalipse, são os responsáveis por salvar a população mundial. Curiosamente, em um toque de humor negro de Emmerich, as arcas utilizadas para encontrar refúgio são construídas pelos chineses. Já o "lado humano" tem um velho clichê: o motorista de limousine, que já tentara a vida como escritor, Jackson Curtis (personagem de John "Rob Gordon" Cusack), ex-marido de Kate (Amanda Peet), precisa se esforçar para melhorar a relação com os dois filhos, Noah (Liam James) e Lily (Morgan Lilly). E o fim do mundo resolve acontecer justamente quando o pai tem a chance de acampar com as crianças no parque nacional Yellowstone, um dos alvos da "fúria da natureza".
Quem rouba a cena no filme, porém, é Woody Harrelson. Com desenvoltura, ele encarna o tradicional profeta desacreditado, tipo de personagem indispensável para qualquer thriller apocalíptico.
Independentemente das crenças e convicções de qualquer espectador, 2012 deve ser visto apenas como uma avassaladora experiência visual, pois não há fiel comprometimento em relação à "verossimilhança". Portanto, não vá ao cinema com a vã ilusão de adquirir conhecimento sobre a profecia Maia. Preocupe-se apenas em relaxar e fazer cara de espanto ante às grandes tragédias, furacões, maremotos, fissuras tectônicas, e - o que é o mais legal em um filme-catástrofe - imaginar como seria se você estivesse no meio de todo o caos.
'À procura de Eric' e '500 dias com ela' entre as estreias
05 Novembro, 2009
À procura de Eric, filme de abertura da efervescente Mostra de São Paulo 2009, é mais um longa sutil da dupla Ken Loach (diretor) e Paul Laverty (roteirista), cuja obra-prima - o drama político Ventos da Liberdade (2006) - foi laureada em Cannes com a Palma de Ouro há três anos. Já 500 dias com ela, de Marc Webb, teve grande destaque no Festival do Rio deste ano e sua primeira sessão contou, inclusive, com a visita do diretor à Cidade Maravilhosa. Tida como uma comédia romântica enraizada no cult e provida de uma trilha sonora que merece mais destaque do que o próprio filme (veja a lista de músicas), a estreia de Webb no cinema se empenha em transgredir os limites estabelecidos para o referido gênero cinematográfico, o que consegue sem a necessidade de apelos ou exageros.
A simplicidade narrativa é o ponto em comum entre as duas produções, cada qual estruturada a partir das particularidades de seu respectivo diretor - um veterano e um estreante. Ambos os filmes entram em cartaz nesta sexta-feira, 5 de novembro, nos cinemas de todo o Brasil. A lista de estreias tem ainda Código de Conduta, de F. Gary Gray; Fama, de Alan Parker; Os fantasmas de Scrooge, de Robert Zemeckis; Jogos Mortais VI, de Kevin Greutert; Um Lobisomem na Amazônia, de Ivan Cardoso; e O Solista, de Joe Wright. Veja os trailers no próximo post.
O eterno camisa 7 do Manchester United encarna a ele próprio em uma comédia sublime, cujo personagem principal também se chama Eric (o carteiro Eric Bishop, interpretado por Steve Etts). Apaixonado pelo clube inglês e fã incondicional de Cantona (como todo autêntico torcedor dos Diabos Vermelhos), o protagonista está envolto em uma série de problemas como o divórcio, o convívio conturbado com os enteados adolescentes (um deles se relaciona com gângsteres), a falta de dinheiro, um amor mal resolvido, entre outros.
Temos aí o contraponto em relação ao "clima de fantasia" que se sucederá: misteriosamente, Cantona aparece na vida de Bishop para aconselhá-lo e auxiliá-lo. Loach, mestre em explorar as relações humanas, guia o espectador em uma história que, pela primeira vez, provoca risadas, não lágrimas. Uma mudança de foco na carreira do experiente diretor, porém fiel à habitual profundidade de sua marca autoral.
Uma grata supresa é a atuação de Cantona - melhor do que muitos atores profissionais que atualmente são escalados para papéis de alguma relevância. De acordo com entrevistas recentes do ex-jogador, À Procura de Eric mostra "o sentimento que eu (Cantona) tinha pelos fãs, a maneira como eu os via, a forma como eu recebia energia deles". Mesmo com o distanciamento natural quanto ao verdadeiro Eric Cantona, já que o personagem é a idealização que Eric Bishop faz do ídolo, é necessário ressaltar a naturalidade divertida deste francês de 43 anos.
- O relacionamento com os torcedores na Inglaterra é algo muito especial. (...) No filme, eu sou Eric Cantona dentro da cabeça de Eric Bishop, em sua imaginação. Essa é a maneira como ele me vê. Isso me distancia muito de mim mesmo. (...) Eu trabalhei em outros filmes nos quais pude me esconder atrás de um personagem. Nesse eu precisei ser eu mesmo. Foi estranho. Eu perguntei coisas para o Ken que eu nunca tinha perguntado antes porque nos dias anteriores às filmagens eu não estava à vontade e eu preciso me sentir confortável com o personagem - disse Cantona.